sexta-feira, 19 de junho de 2009

Hoje eu acordei e continuei deitado

Hoje eu acordei e continuei deitado. Era madrugada quando eu abri os olhos pela primeira vez, os carros notívagos que passavam na rua jogavam suas luzes contra minha janela, alguns raios cruzavam as frestas e corriam, cegos, nas paredes do meu quarto. Eu estava sozinho. Há alguns dias tenho me sentido assim, sinto falta de alguém, de alguém em mim. Acho que em alguma de minhas tantas idas e vindas eu deixei para trás algo que de mim faz parte, algo que eu sou e que me é, simultaneamente. Não sei.
Eu sentia sede. Desejei um copo d'água. Quis ir buscá-lo. Desisti. Mirei os olhos contra a porta e os apertei, não sei o que eu queria ver, mas ainda assim apertei os olhos e desejei ver algo. Não vi. Por sobre minha cabeça as mesmas luzes dançavam velozes e giravam, davam voltas no meu quarto e pareciam sempre vir de encontro à minha cara amassada. A esta altura, minha sede já morrera na boca. Junto com ela, senti morrer em mim duas ou três saudades que ainda me perseguiam.
Revirei-me na cama. No trânsito entre um lado e outro, arrependi-me de quase todo amor que eu dei nos últimos tempos. Chorei. Chorei mais. Eu estava sozinho. Senti-me pequeno. Aquelas velhas saudades mortas voltaram a me perturbar. Revirei-me mais. Nesse mote de ações desesperadamente silenciosas, fiz planos, desejei mudar a direção da vida... As luzes iam e vinham... Ninguém me via.
Levantei-me, andei pela casa até parar em frente a janela da sala. De lá eu podia ver o céu que, junto com as luzes do sol nascente, ia-se colorindo. Como eu amava a alvorada! Não vi mais nada. Subi no parapeito da janela, chorei algumas lágrimas, mudei de direção e voei. Pousei numa rua deserta, sem luzes, sem sede, sem saudades, sem lágrimas, sem fardos. Hoje eu acordei e continuei deitado.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Azia s.f.

Tenho um fogarel no meu peito… Há lava saindo pelos meus poros, enchendo de calor a minha casa. Não tenho ar-condicionado. Meu ventilador está quebrado. Eu queria que um rio, muito de repente, desaguasse em mim - mas nem água.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Eu não tenho uma novidade

Eu poderia te contar uma novidade, mas desta vez não. Eu confesso: estou cansado e isso, acreditem, não é nenhuma novidade.
Eu não tenho uma novidade para contar. É sério! Dentre outras tantas coisas, eu sou um homem velho, curtido, chorado, sangrado e sofrido e eu não sei mais esconder isso de mim, logo, não o sei esconder de você.
Queria poder morrer agora. A sete palmos do chão, escreveria as minhas próprias memórias póstumas, contaria meus absurdos, meus segredos mais cabeludos... E seria, quiçá, uma novidade. Bem, afora Brás Cubas, não conheço muitos mortos que escrevam memórias, então... Além disso, não faria tanta diferença assim... Hoje, por exemplo, eu estou enterrado em mim e não há ninguém chorando de saudade.
Não, eu não estou reclamando da vida, ela até que anda bem movimentada, mas, sabe, é tudo tão mais bonito onde minha cabeça mora. Viajar para dentro de si é fascinante, e - agora falando para que serve este blogue - é mais ou menos essa a idéia que me faz vir aqui e escrever. Conhecer meus mil e um continentes, desbravar cada mata densa, mergulhar em cada mar profundo, ir pulando de mundo em mundo neste monte de mundos que eu carrego bem dentro aqui. É isso que me faz escrever, é isso que me faz existir.