Eu sentia sede. Desejei um copo d'água. Quis ir buscá-lo. Desisti. Mirei os olhos contra a porta e os apertei, não sei o que eu queria ver, mas ainda assim apertei os olhos e desejei ver algo. Não vi. Por sobre minha cabeça as mesmas luzes dançavam velozes e giravam, davam voltas no meu quarto e pareciam sempre vir de encontro à minha cara amassada. A esta altura, minha sede já morrera na boca. Junto com ela, senti morrer em mim duas ou três saudades que ainda me perseguiam.
Revirei-me na cama. No trânsito entre um lado e outro, arrependi-me de quase todo amor que eu dei nos últimos tempos. Chorei. Chorei mais. Eu estava sozinho. Senti-me pequeno. Aquelas velhas saudades mortas voltaram a me perturbar. Revirei-me mais. Nesse mote de ações desesperadamente silenciosas, fiz planos, desejei mudar a direção da vida... As luzes iam e vinham... Ninguém me via.
Levantei-me, andei pela casa até parar em frente a janela da sala. De lá eu podia ver o céu que, junto com as luzes do sol nascente, ia-se colorindo. Como eu amava a alvorada! Não vi mais nada. Subi no parapeito da janela, chorei algumas lágrimas, mudei de direção e voei. Pousei numa rua deserta, sem luzes, sem sede, sem saudades, sem lágrimas, sem fardos. Hoje eu acordei e continuei deitado.